Circuito de Montes Claros


Uma foto inédita que nos mostra o Ferrari 250 GT #2035GT (GF-50-32) que foi pertença, inicialmente, de Jorge Moura Pinheiro (1960), mas que ficou célebre pelas vitórias conseguidas por Horácio Macedo, que o utilizou entre 1961 e 1964, no Circuito de Montes Claros de 1969, através de "Casteliano Júnior" que terminou essa corrida no 7º lugar da geral, e onde se apresentou pintado de cor de laranja. 
Agradecemos a cedência desta preciosa e esclarecedora fotografia a Pedro Barros e ao seu autor, Luís Sousa.
Pode ver o registo de provas deste Ferrari, bem como dos restantes 250 GT que correram em Portugal, aqui:

http://ferrariemportugal250gtswb.blogspot.com/
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XVI Circuito Internacional de Vila Real
6 Horas de Vila Real
5 e 6 de Julho

O Dino 206S #004 nas boxes do Circuito de Vila Real.
(Foto: Manuel Menéres/Via Ângelo Pinto da Fonseca)


Nesta edição de 1969, a comissão permanente do Circuito de Vila Real organizou uma prova com a duração de 6 Horas, aberta a automóveis de Sport. Esta decisão de efectuar uma prova com esta duração, estava relacionada com a intenção da organização local se candidatar à realização de uma prova que integrasse o Mundial de Marcas.
Na quinta-feira de madrugada (dia 3 de Julho) a noticia chega a Vila Real: onze automóveis participantes nesta edição do Circuito estão retidos na fronteira Franco-Espanhola (Irun-Hendaia); alegadas razões burocráticas fizeram com que isto sucedesse. As autoridades fronteiriças espanholas exigiam uma caução de 500.000 pesetas para desbloquear esta incómoda situação. Em Vila Real, a Comissão Organizadora iniciou então intensas diligências, no sentido de resolver rapidamente este problema. Influências diplomáticas e algumas boas vontades ao mais alto nível político, ultrapassaram este inesperado (mas de certa forma comum, na época) obstáculo. No entanto, a organização Vila-Realense colocou mesmo a hipótese de fretar um avião para fazer o transporte dos automóveis até Vila Real. Tal não foi necessário e os automóveis tão desejados acabaram por dar entrada em território português por volta das 5 horas da madrugada do dia 4 de Julho (sexta-feira). Estes 11 automóveis vinham acompanhados pelos mecânicos, já que os pilotos já se encontravam em Vila Real; entre estes encontrava-se Alain de Cadenet e Mike Walton, que esperaram pelo seu Dino 206S #004 vermelho. Testemunhas da época falam de treinos privados que este Ferrari fez na rua de Santa Iria (uma zona perto do circuito), e no próprio circuito, durante a noite de sexta-feira…


Os Ferrari presentes

Dino 206 S #004

Depois da corrida, em 1968, disputada em Montes Claros (por Nicha Cabral), De Cadenet utilizou o 206S #024 em Crystal Palace, em Agosto. No entanto, e depois de uma noite de festa, De Cadenet iniciou os treinos num circuito onde nunca havia pilotado, e o inevitável aconteceu logo na primeira curva do circuito. De Cadenet bateu forte com o 206S, que tinha agora a cor púrpura, deixando o Ferrari particularmente afectado em todo o lado esquerdo.
Entretanto, Jeff Edmond propôs-lhe trocar o seu Porsche pelo Dino acidentado. De Cadenet aceitou, sem antes enviar o Ferrari para a Arch Motors, onde foi recontruído.
Nesta altura, Tony Dean conseguia grandes resultados com o seu 206 S #004, ganhando provas em Inglaterra, vencendo o campeonato dedicado aos carros de 2 litros, bem como algumas provas de Fórmula Livre. Era, provavelmente nesta altura, o 206S melhor preparado, usado por um privado.

E finalmente surge, em Julho, a corrida de Vila Real. Aqui De Cadenet aparece com o Dino 206S #004, bem como com o Porsche 908 (que efectuou aqui a primeira prova na equipa De Cadenet, pilotado por David Piper/Chris Craft).
Este 206S está equipado com um motor de dezoito válvulas, tal como o #024, (e igualmente com molde de fundição Ferrari) embora De Cadenet tenha tentado, sem sucesso, junto da Ferrari, a obtenção do motor de 24 válvulas. Mas em Maranello não achavam apropriado entregar este motor, com componentes de Fórmula 2, às mãos de privados.

Em Vila Real, o Dino surge agora com uma carroçaria feita em fibra de vidro (os capôts frontal e traseiro), com corte na parte superior, tendo uma pequena superfície em plexiglas a servir de pára-brisas, algo que sucedeu (com algumas pequenas nuances) com alguns Dino 206S - sobretudo aqueles que eram usados em provas de rampa, os Spider Montagna. Nesta configuração, o 206S tinha um peso de aproximadamente 530 a 550Kg, contra os 580Kg da versão “standard”.
(Foto: Manuel Menéres/Via Ângelo Pinto da Fonseca)


O 206S preparado para iniciar os treinos oficiais, de Cadenet fez durante a noite de Sexta-feira alguns "treinos" privados com este automóvel por uma rua de Vila Real, provavelmente para afinar a injecção do Ferrari....
(Foto: Manuel Menéres/Via Ângelo Pinto da Fonseca)



Durante os treinos, Alain de Cadenet conseguiu o 10º tempo, nunca forçando demasiado o andamento, tendo em consideração que para uma corrida de 6 horas, a posição na grelha de partida era relativamente secundária.

O 206S parado no Jardim da Carreira.
(Foto: autor desconhecido)

Fotos que descrevem algumas fases da prova do 206S #004 de Alain de Cadenet e Mike Walton: a largada, onde partiu do 10º lugar (fotos de cima). Em baixo, logo atrás do Nomad BRM V8 MK2 (2litros) nº39 de Mark Konig/Tony Lanfranchi, que terminaram a corrida em 8º lugar. Na foto da direita, atrás do Porsche 906 nº16 da dupla portuguesa, Manuel Nogueira Pinto/João Andrade Vilar, que terminaram a corrida atrás do 206S (7ºs da geral).


A corrida teve inicio pelas 14.30h, sendo, até à data, a prova de automóveis de maior duração realizada em Portugal.
No inicio da corrida, e com cerca de uma hora passada, De Cadenet recuperou da 10ª posição à partida até à 7ª (a 2 voltas do comandante da corrida). Com um andamento rápido, o 206S consegue chegar à 4ª posição, sempre com De Cadenet ao volante, com cerca de 1.30h.
Mike Walton inicia o seu turno de condução à 3º hora, caindo nesta altura o 206S para o 6ºlugar (a 7 voltas de David Piper, o líder da corrida).
Até ao final (numa corrida que terminou cerca das 20.40h), o Ferrari da dupla de pilotos ingleses, mantem esta posição, terminando a corrida com 6h.01’.58’’.24 à média de 142.337Km/h (124 voltas), com a volta mais rápida de 2.43.87 (152.132Km/h). Terminaram em 3º da classe de dois litros, atrás do Porsche 910 de Bill Bradley/Tony Dean (curiosamente o anterior proprietário do 206S #004) e do Chevron/BMW de Peter Brown e Clive Baker.
Como curiosidade, Mário Araújo Cabral, que utilizou um 206S no ano anterior aqui em Vila Real, não teve sorte novamente no circuito transmontano, desta vez ao volante de um Porsche 907 (em parceria com André Wicky). Desistiu com apenas 1h.35’ de corrida, com o rebentamento de um tubo de óleo.
Para terminar, não resistimos a contar uma história que em muito caracteriza também toda uma época. Depois de Vila Real, Alain de Cadenet foi disputar (em Agosto) as Nordic Cup Series, levando novamente consigo o 206S #004. A dada altura, durante uma das (3) provas que compunham estas séries, Jo Bonnier levou Cadenet muito discretamente para um canto e questionou-o sobre o motivo de não comprar um motor Dino V6 246 (2,4l) Tasman para colocar no 206S. De Cadenet respondeu-lhe: “Mas Jo, é uma classe de 2 litros, isso seria ilegal”. Bonnier olhou para de Cadenet e disse-lhe: “Realmente Alain, tu surpreendes-me, tu não sabes que todos nós usamos motores Chevy de 5,6 litros nos nossos Lola’s?" (NDA: numa classe com limite de 5 litros).



275 GTB #9035GT

O #9035GT numa altura em que saía do parque fechado situado no Jardim da Carreira.
(Foto: Arquivo Ângelo Pinto da Fonseca)


Neste Circuito de Vila Real de 1969, esteve igualmente presente outro Ferrari, o 275 GTB (#9035GT) com o registo WMT 18G pilotado por Anthony Beeson e Nigel Moores. Um Ferrari que havia pertencido à equipa Maranello Concessionaires e mais tarde a Paul Vestey, que (em dupla com Vestey) teve um passado desportivo com Carlos Gaspar ao volante. Curiosamente, Anthony Beeson foi um dos primeiros pilotos a pilotar o 206S #004 em corrida, após a aquisição deste por Alain de Cadenet. De forma relativamente anónima, esta equipa fez o 27º tempo nos treinos e desistiu na corrida. Depois da presença do Ferrari 275 GTB de Achiles de Brito no Circuito de Vila Real de 1966 (onde desitiu, por acidente), este 275 GTB não se deu melhor na pista transmontana, tendo desistido com 33 voltas cumpridas, devido ao rompimento do depósito de gasolina.